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"Se tem mulher, tem luta!"

Todas contra a Zika

Story by UNFPA Brasil October 6th, 2017

Salvador, Bahia - Nas ruas do Calafate, em Salvador, todo o mundo conhece Marta Leiro. Uma amiga a cumprimenta e, “rindo para não chorar”, não demora a contar: “meu ex marido me agrediu, vou na polícia”. Marta acolhe, aconselha, é forte. Depois suspira: é a realidade da sua comunidade onde também ela, um dia, se ergueu e lutou. Não parou mais.

Acabar com a violência contra as mulheres e promover a saúde e os direitos humanos são as linhas orientadoras do Coletivo de Mulheres do Calafate, uma organização de base comunitária e feminista fundada por Marta em 1992.

No Calafate, o tema Zika surgiu entre vizinhas que reportaram muitos casos do vírus na comunidade. O alerta logo virou demanda e o Coletivo de Mulheres do Calafate respondeu a isso se unindo ao Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e a outras ONGs na iniciativa “Atuando em contextos de Zika: direitos reprodutivos de grupos em situação de vulnerabilidade”.

“O projeto Se Tem mulher tem luta - todas contra a zika é desenvolvido dentro desse contexto do enfrentamento à violência contra a mulher e esse enfrentamento não se limita somente em assegurar políticas públicas ou garantir o acesso das mulheres a serviços de enfrentamento à violência, mas principalmente em criar um espaço de acolhimento na comunidade, de acolhimento entre as vizinhas”, explica Marta Leiro.

Na época, as reações na comunidade ao primeiro caso de microcefalia, síndrome congênita de Zika, revoltou as companheiras, o que levou Marta a agir de forma peremptória. “Uma associada do coletivo teve um filho com microcefalia e a gente começou a perceber a mudança da comunidade, que não chamava ela mais de Greicy mas de ‘a mãe do menino que nasceu com microcefalia’. Não dá pra acontecer isso não! É Greicy Alves, com nome e sobrenome!”, afirma.

Em resposta, o Coletivo de Mulheres do Calafate reuniu um grupo de mobilizadoras, a quem deu formação com vistas a ampliar seus conhecimentos sobre zika, dentro de uma perspectiva dos direitos das mulheres, direitos sexuais e reprodutivos que pudessem ganhar visibilidade dentro da comunidade.


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“O diálogo é o mais emergente, sozinha a gente não consegue”, Marta Leiro.

“O primeiro ganho é conhecimento”, conta Simone uma das mobilizadoras do projeto. “A partir do momento que você tem a possibilidade de trazer formações para essas mulheres, você muda seu pensamento, você muda seu olhar. Elas vestem a camisa do zika em qualquer lugar, seja no supermercado, seja no ônibus, e eu acho que o ganho com a formação, com a educação transformou bastante, se sente na expressão delas”.

A experiência de Elba ao levar o questionário para as mulheres da comunidade, ganhando a chance de ouvi-las, também foi positiva. “Foi um despertar para o que a gente ouve muito falar na televisão. A gente tinha as nossas formações aqui, aprendia e repassava na comunidade. Nas últimas semanas de porta a porta, a gente foi divulgando o que aprendeu, e as pessoas passaram a ter o entendimento de que mantendo relações (sem proteção) poderiam contrair o vírus da zika”.

“A comunidade ganhou informação e precisa de outros projetos como esse porque acho que quanto mais isso, empodera as pessoas a fim de ter mais conhecimento de seus direitos e assim poder cobrar por eles, porque as comunidades ficam muito esquecidas, são vistas como perigosas. E eu acho que todo o mundo precisa ter conhecimento de seus direitos”, conclui outra mobilizadora do projeto, Lindiane.


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Educação para a saúde e educação ambiental foram áreas estratégicas no enfrentamento ao vírus Zika na comunidade do Calafate como conta Elba. “A gente conseguiu mobilizar moradoras que jogavam lixo em terreno baldio, outra companheira diz que conseguiu fazer um trabalho legal na área dela, que a galera tem mais mobilização a respeito do lixo, não joga mais à toa”, comemora.

“A galera dizia, ah se a zika pega no sexo traz camisinha!”, Elba.

Camisinhas masculinas e femininas foram distribuídas pelo Coletivo de Mulheres de Calafate durante a devolutiva para a comunidade: “a gente foi dando um saquinho que tinha um folheto do UNFPA sobre o uso do preservativo, tinha o preservativo e a gente falava que estava dando retorno para as pessoas que tinham direito de saber sobre a zika e agradecia pelo acolhimento”, conta Elba.

Com ou sem Zika, no Calafate o lema é “Se tem mulher, tem luta” e a luta por uma vida mais digna de todas e todos continua agora e sempre.



Footnote: Texto e fotos: Tatiana Almeida
Salvador - BA, Brasil