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Saúde: ausência de doença ou bem-estar?

Parceiros do UNFPA na Bahia promovem direitos sexuais e reprodutivos

Story by UNFPA Brasil November 3rd, 2016

Salvador, Bahia - Parceiros do UNFPA na campanha “Mais Direitos, Menos Zika” se reúnem em ação formativa de promoção à saúde e de conscientização para o exercício pleno do direito à saúde sexual e reprodutiva.

É sábado pela manhã e o auditório do Centro Cultural Alagados, sede da REPROTAI - Rede de Protagonistas em Ação de Itapagipe - tem casa cheia. Numa comunidade onde a luta por mais direitos, menos zika conta com um movimento social ativo e empoderado sob uma liderança jovem, a ação de formação promovida pelo Odara - Instituto da Mulher Negra - teve como ponto de partida as injustiças sociais e a violação de direitos humanos.

“Meu pai diz que se eu engravidar me põe fora de casa”, conta Jennifer entre soluços.

“Durante todos esses anos de racismo ambiental, cultural, machismo e violação dos direitos humanos a gente ainda consegue ter filhos criados, a gente consegue levantar e trabalhar, a gente vem aqui na comunidade do Uruguai e vê jovem fazendo arte, dançando, cantando. Com todos esses anos de violação de direitos humanos a gente consegue construir formas positivas de sobrevivência”, Ana Carolina Gomes.

Facilitadora da ação formativa, a psicóloga Ana Carolina lembrou que saúde é o bem-estar físico e mental e não somente a ausência de doença defendendo que os determinantes sociais, redes sociais e comunitárias, estilos de vida, idade, sexo e fatores hereditários também determinam e influenciam a saúde dos indivíduos. “Eu só vim promover um espaço de discussão coletiva, suscitar uma reflexão mas as pessoas já sabem tudo isso! Elas sabem o que são direitos reprodutivos, elas sabem o que é promoção da saúde. Elas só não sabem dar os nomes teóricos, os nomes conceituais”, defende Ana.

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- Todo o mundo aqui consegue acessar a serviços de saúde públicos? A qualidade do acesso é boa? A qualidade do atendimento é boa?, pergunta a psicóloga e formadora. A resposta geral é negativa.

“Teve uma vez que eu fiquei contando e as pessoas não ficavam nem 40 segundos no consultório. A médica assinava com uma mão, carimbava com a outra. E aí quando foi a minha vez eu demorei para fechar a porta para ter certeza que ela olhava para mim. E não sentei até que ela parou para olhar para mim e aí sim conversámos”, recorda Denívia Gonçalves, 30 anos.

“Tudo o que eu aprendi aqui hoje que devemos cuidar do nosso corpo, temos liberdade para fazer escolhas”

Com um público majoritariamente jovem, a estratégia de Ana Carolina é escutar os sonhos, ansiedades e preocupações de cada uma e de cada um. Três jovens sonham ser médicas e temem que dificuldades econômicas bloqueiem seu futuro, outras compartilham o sonho da maternidade, de ter uma casa e cuidar da saúde dos pais para que vivam mais e melhor.

- “Meu pai diz que se eu engravidar me põe fora de casa”, conta Jennifer entre soluços.

Aos 16 anos, sem acesso livre à informação e liberdade para quebrar o tabu do sexo com os pais a jovem vive angustiada. “Eu não tenho uma liberdade para falar com os meus pais sobre esse assunto, minha mãe não conversa sobre isso e muito menos o meu pai. O único espaço de informação é aqui na REPROTAI porque é um espaço aberto”, explica.

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As preocupações de Jennifer são as mesmas que Denívia, hoje com 30 anos, experienciou durante a adolescência: “acredito que não ter esse acesso livre à educação sexual no ambiente escolar foi uma violação de direitos […] as meninas têm dificuldades no acesso ao planejamento familiar, quando elas já estão gestantes elas são responsabilizadas por aquela gestação. E se aquela gravidez tivesse sim sido planejada? É um direito dela, é o corpo dela, ela pode fazer perfeitamente o que ela quer”.

A formadora alerta para a dicotomia saúde sexual e saúde reprodutiva que nem sempre caminharam juntas na abordagem clínica: “na perspectiva anterior, o corpo que reproduz é o corpo feminino e esse corpo de reprodução se reduzia a isso, nada mais. Então a gente vai tratar a educação sexual enquanto oportunidade e direito de exercer sua sexualidade”.

“Tudo o que eu aprendi aqui hoje que devemos cuidar do nosso corpo, temos liberdade para fazer escolhas”, conclui Jennifer.

A formação contribuiu para derrubar tabus coletivos e falar abertamente sobre saúde sexual e reprodutiva, direitos fundamentais que o UNFPA e seus parceiros vêm promovendo nas comunidades mais afetadas pelo vírus zika.

Footnote: Texto e fotos: Tatiana Almeida / UNFPA Brasil
Salvador - BA, Brasil