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Mulheres de Terreiro

Espaços de promoção da saúde

Story by UNFPA Brasil October 6th, 2017

Olinda, Pernambuco - É sexta-feira e no Terreiro de Xambá todos vestem branco, símbolo de unidade e fraternidade nas religiões Afro-Brasileiras, para participar na Roda de Diálogo com mulheres de Terreiro.

Filhas de Exu, Obaluaiê, Ogum, Oxumarê, Iroko, Iansã, Xangô, Obá, Oxóssi, Logun Edé, Ossaim, Oxalá, Oxum, Iemanjá, Nanã ou Ibeji, todas vieram com um objetivo comum: empoderar e fortalecer a efetivação da saúde integral e de seus Direitos Sexuais e Reprodutivos por meio do acesso a informações seguras no contexto da Epidemia da Zika no Estado de Pernambuco.


“A minha ancestralidade grita em mim, eu sou mulher de Terreiro”, Jeize.

Os Terreiros são espaços de acolhimento e inclusão, de troca de saberes e conhecimentos capazes de influenciar políticas públicas. A roda de conversa visa também partilhar as experiências do projeto “A fala da Mulher Negra - para garantia do direito a saúde”, uma parceria entre o UNFPA, Uiala Mukaji e várias ONGs da sociedade civil organizada.

Depois de uma oração aos orixás, as mobilizadoras do projeto compartilharam experiências que as fortaleceram enquanto mulheres negras, jovens e de terreiro.


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“Entrar nesse projeto foi excelente e a fala da mulher independentemente de ser negra ou não foi muito importante porque foi um empoderamento para mim. Eu descobri no projeto, porque eu não era uma mulher esclarecida, nem sabia buscar meus direitos. Sou mãe de duas filhas, levei a vida cuidando do marido e das filhas”, conta Luciene, uma das participantes do grupo.

Ingrid sempre teve curiosidade pela religião do candomblé e a experiência no projeto permitiu que pudesse se ver de outra forma. “O projeto me fez ter ainda mais curiosidade, e aí eu fui em busca e isso realmente me fortaleceu. Eu passei a entender que ser negro é ser bonito. Se você está de branco e fala de Oxalá já é um susto. E aí eu tive essa percepção de que é bonito ser negro e ser candomblecista”, comemora.

Tal como ela, muitas mulheres que participaram da escuta não se assumiam como negras ou pardas: “Muitas mulheres como mecanismo de defesa (…) negam que são mulheres negras, elas se dizem amarelas, se dizem morenas, se dizem mulatas, se dizem o que for, mas elas não conseguem dizer que são mulheres negras”, explica Vera Baroni, Fundadora do Uiala Mukaji.

“Esse projeto me fez enxergar que eu sou negra, o meu vizinho é negro, todos nós somos negros. Eu não me identificava como negra, no meu registro eu tenho parda e a minha família tem pessoas indígenas. Mas depois do projeto, eu pude perceber que eu tenho mais negro do que qualquer outra coisa”, conta Elaine, sorrindo.

Mãe de 4 meninas, Jeize aprendeu muito com o projeto sobre direitos sexuais e reprodutivos. Uma informação que ela não tinha quando engravidou, pela primeira vez, aos 16 anos. Foi mãe solteira, casou por pressão da família e levou vários anos até conseguir se encontrar.

“A partir do projeto eu pude sentar com as duas mais velhas - a Leize tem 12 e a Liz tem 10 - e conversar sobre direitos sexuais e reprodutivos”, diz. “Sofri muita descriminação por ser mãe tão jovem e começou dentro de casa. Aos 16 anos fui obrigada a casar - civil e religioso. Eu queria outra vida, eu queria não estar com aquela pessoa mas não tive o apoio da minha mae, não tive apoio de familiares e a parte religiosa influiu bastante”, desabafa.

Jeize e Diane estão agora preparando a criação do “Coletivo Negras e Negros em Ativo na Comunidade”, fazendo sua voz chegar a jovens como elas.

Luís é um dos dois homens que participaram da escuta da mulher negra, sendo confrontado pela realidade difícil enfrentada pelas mulheres. “Os homens são machistas, a gente é ensinado a ser machista, como a gente também é ensinado a ser racista, como a gente também é ensinado a ser homofóbico. Mas se a gente aprende a ser homofóbico, a ser racista, a ser machista, também aprende a desconstruir esses preconceitos que vão nos edificando”, conclui.

Segundo o Censo do IBGE (2010), 62% da população no Estado de Pernambuco é preta ou parda, só na cidade de Recife são 68%. A coordenadora da Política Estadual de Saúde da População Negra, Miranete Arruda, que também participou do encontro, refletiu sobre os impactos da epidemia do vírus Zika na população negra.


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A coordenadora da Política Estadual de Saúde da População Negra também reconhece que ainda falta muito a ser ser feito pela implementação efetiva da lei da saúde da população negra. "O que falta é os gestores assumirem como responsabilidade deles a implementação dessas políticas. Primeiro conhecerem de fato e de forma mais adequada, segundo a se comprometerem com isso e terceiro dar as condições para que dentro da administração pública a lei possa ser desenvolvida e ser implementada”, explica.

O projeto “A fala da Mulher Negra” foi desenvolvido nas comunidades de Recife Dois Unidos e Mustardinha; Amaro Branco em Olinda e Jardim Paulista Baixo em Paulista, alcançando também mulheres negras e de terreiro e jovens da cidade de Caruaru.



Footnote: Texto e fotos: Tatiana Almeida
Olinda - PE, Brasil