You’re viewing a version of this story optimized for slow connections. To see the full story click here.

InfoBike: pedalando pela saúde na periferia de Recife e Salvador

Story by UNFPA Brasil October 31st, 2016

Recife, Pernambuco - Em parceria com o UNFPA, jovens feministas lutando pela garantia e pelo reconhecimento de direitos sexuais e direitos reprodutivos pedalam por mais saúde e qualidade de vida em bairros periféricos de Recife e Salvador.

“A ideia da Infobike é levar a discussão de direitos sexuais e reprodutivos, levar essa reflexão e essa informação que não chega na comunidade. E é uma estratégia que a gente usou de forma criativa para mobilizar os jovens e trazê-los para esse diálogo”, explica Talita Rodrigues, a responsável pelo projeto do Coletivo Mangueiras em Pernambuco.


Num bairro marcado pela violência, abordar o tema dos direitos humanos também significa escutar a dor de mulheres que, ainda meninas, tiveram que crescer cedo demais.

“Mais Direitos, Menos Zika”, a música criada pelo Dream Team do Passinho, ecoa pelas ruas do Bairro da Várzea à medida que a InfoBike circula. Este é um dos mais afetados pela epidemia do vírus Zika na cidade de Recife com um dos números mais elevados de casos confirmados de síndrome congênita de Zika, incluindo microcefalia. Várzea tem 70.453 habitantes, na sua maioria mulheres (53,34%), tendo em janeiro de 2016 sido considerada uma área de risco 3, numa escala de 0 a 4, para a infecção do mosquito aedes aegypti.

Devido à grande demanda por insumos contraceptivos, os preservativos masculino e feminino são, segundo Talita Rodrigues, a “porta de entrada” do Coletivo Mangueiras na comunidade: “quando a gente chega na comunidade e vê que ela tem uma outra demanda, a gente tem focado muito em falar sobre a transmissão sexual do zika, que é algo que as pessoas não sabem: como evitar, como se proteger e a importância da parceria dos homens”.

DSC_0482 (1).JPG
DSC_0454.JPG
DSC_0474.JPG
DSC_0434.JPG
DSC_0492.JPG

Grávida de 6 meses, Adriana Cardoso da Silva, é uma das mulheres que os jovens abordam e a quem explicam como usar a camisinha feminina: “eu estou esperando o momento para conversar com meu marido sobre usar camisinha. Eu acho que não vai ser fácil porque ele não gosta mas vai ser o jeito usar, né? Eu vou dizer que tá’ ainda contaminando muito a zika, que ainda tá’ com muito risco da gente pegar zika e chikungunya e não tem jeito”.

“Coisas muito legais que surgiram é o interesse das mulheres imenso na camisinha feminina”, conta Talita, “foi o que mais demandaram, a gente estava na rua e vinham mulheres de outras ruas correndo e dizendo ‘eu quero aquela camisinha que faz o 8!’”. Mulheres, homens, jovens e até um menino de bicicleta dizendo “minha mãe pediu camisinha”, claramente reconheciam a InfoBike pelos seus insumos contraceptivos.


“A ideia da Infobike é levar a discussão de direitos sexuais e reprodutivos, levar essa reflexão e essa informação que não chega na comunidade”

Adriana queixa-se que no posto de saúde só tem camisinha masculina, a médica que a acompanha nunca falou sobre zika mas teve uma sessão sobre prevenção da sífilis. Já Andreza Cotas, também gestante, e o marido dizem que durante 2 meses o posto não tinha preservativos “a gente comprou mas depois deixou de comprar”, conta Moisés. “Mas sempre que eu tomo banho, passo repelente”, assegura Andreza.

“Abriam as portas de casas e chamavam as amigas, as vizinhas. A camisinha feminina foi uma grande surpresa para a gente! E com os homens a gente conseguiu construir um diálogo muito legal. Eu estava com medo porque a gente cria essa ideia desse homem violento que não vai deixar a mulher acessar à informação, que não vai querer informação e pelo contrário, a gente não teve nenhum problema”, conclui a coordenadora do projeto, satisfeita com os resultados.

DSC_0452.JPG

Num bairro marcado pela violência, abordar o tema dos direitos humanos também significa escutar a dor de mulheres que, ainda meninas, tiveram que crescer cedo demais.

“Eu fui mãe com 13 anos, não tinha informação de nada. Eu era uma menina sem juízo, se eu tivesse o juízo que tenho hoje o meu primeiro filho ia ser agora. Eu era uma menina, não tinha cabeça e não pensava, né? Só queria saber de namorar, deixei de estudar e hoje eu me arrependo”, conta Ana Paula que aos 27 anos cria sozinha 3 rapazes. Passou por dois casamentos, nos dois foi vítima de violência doméstica, mas sempre guerreira e sempre seguindo adiante. Ela ressalta a necessidade de contar com mais apoio da polícia e das instituições do Estado na prevenção e na proteção das vítimas de violência.


o coletivo de jovens é a resposta às demandas da comunidade “a gente precisa mais desse envolvimento coletivo de jovens e de criar estratégias para dialogar”

“Eu sei que eu sou guerreira com os meus filhos, sou uma boa mãe, uma boa filha, isso aí eu sou. Não tive sorte com companheiro. Eu quero me prevenir e não ter mais filhos, por mais bons que eles sejam homem é tudo a mesma coisa, só muda de nome e endereço. Os maridos não querem ser maridos, querem ser o pai da mulher”, desabafa Ana Paula, os olhos rasos de água.

Ana conhece a lei Maria da Penha mas diz que as mulheres ainda não estão protegidas: “tá nada, as mulheres não estão nada protegidas da violência doméstica! Vai depender da mulher, se ela aceitar ele vai bater nela sempre”. Ana não aceitou e hoje cria, determinada, três filhos para se tornarem bons homens.


DSC_0437.JPG
DSC_0449.JPG
DSC_0418.JPG
DSC_0411.JPG
DSC_0404.JPG
DSC_0394.JPG

Para Talita, o coletivo de jovens é a resposta às demandas da comunidade “a gente precisa mais desse envolvimento coletivo de jovens e de criar estratégias para dialogar sobre feminismo e sobre direito das mulheres na comunidade, com as mulheres da comunidade envolvendo mulheres negras, jovens negras e estar trazendo esses conhecimentos porque a gente percebe que existe uma carência muito grande da discussão”.

Pedalando por “Mais Direitos, Menos Zika” o Coletivo Mangueiras atua em Recife e Salvador com o projeto InfoBike com o objetivo de fortalecer o papel destes jovens na luta pela autonomia sexual e reprodutiva e os direitos das mulheres em tempos de Zika.

Footnote: Texto e fotos: Tatiana Almeida / UNFPA Brasil
Recife - PE, Brasil